terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O Tempo e a Vida

Gosto de escrever sobre assuntos não comuns, que tratam do ser humano, dos seus descaminhos e equívocos. Hoje começo dizendo que as crianças vivem como se fossem eternas. Não se preocupam com o futuro, com a velhice e nem com a morte. O momento mais importante é aquele em que está vivendo e, quando têm que esperar, a ansiedade é vivida intensamente e o momento é antecipado, com a imaginação. As que são felizes pensam que serão felizes para sempre e as que sofrem acreditam que sempre sofrerão, embora tenham pequenos lampejos de esperança que se desfazem logo, com a dura realidade. Um momento de tristeza para a criança feliz causa-lhe revolta, enquanto uma alegria para a criança triste causa perplexidade. A infância demora mais na vida de uma criança feliz. Na outra, quanto mais rápido for adulto mais possibilidade de diminuir o sofrimento. Certo é, no entanto, que ambas, continuando vivas, ficarão adultas.
Quando adultos, o tempo parece passar mais rápido; os dias e os anos correm e a verdade da finitude nos causa um grande desencanto. Tão grande é o desencanto que nos apegamos a quimeras religiosas que anunciam a vida eterna, a reencarnação e outras promessas irrealizáveis. Aqueles que não embarcam nessas promessas se apegam à vida material, embelezam-se com o consumismo, com o acúmulo de poder e riqueza, mesmo que tenham que declinar da ética e da busca de um sentido mais consistente para a vida. A palavra de ordem é gastar a vida a qualquer custo.
Pobre criatura, alienada; brilho infinitesimal, cujo tempo de vida não chega a um piscar dos olhos da eternidade; cuja morada, que degrada sem dó, com sua ignorância exacerbada, é apenas um ponto insignificante, diante da incalculável quantidade de estrelas e astros. Pobre criatura, que num devaneio patético concebeu um ser, que chamou de Deus, e a este atribuiu a construção do universo, responsabilizando-o pelos seus próprios desígnios, pelos seus problemas de consciência, pela sua atabalhoada saga. É a ti, pobre ser humano, que quero dizer: não precisa dar cabo da tua raça e nem da tua casa. Não precisa viver teu curto tempo da vida como se apenas tu importasse. Não precisa antecipar o fim.
A Natureza, essa mesma que cuidas em alterar a teu bel-prazer, te surpreenderá um dia, com tão contundente golpe que não sobrará nem mesmo as sementes que te fizeram brotar, e, como os Dinossauros, sairás de cena definitivamente. Então, por que antecipar a morte do Planeta? Deixa que a Natureza siga seu curso. Quem sabe, nossa civilização, com mais juízo, não possa salvar-se em outra casa; num planeta que venha a descobrir e com uma tecnologia, que venha a desenvolver, se tiver tempo?
Não é porque a nossa vida é passageira que devemos desprezar as próximas gerações. Não é por Deus e nem pela Natureza, que devemos salvar a humanidade. É porque o ser humano é um projeto tão bonito, tão promissor que é lamentável não ter tempo para se redimir, para se retratar, diante de si mesmo.
Portanto, desejamos que quando um asteróide, um grande meteoro ou qualquer outro astro venha a se chocar com a Terra, estejam os humanos ocupando, de forma inteligente, outro planeta, que certamente se chamará Nova Terra. Onde as crianças, cientes de que um dia morrerão, saberão valorizar a vida, e os adultos, conscientes de sua existência, saberão valorizar a morte. E todos os seres vivos possam esgotar todo o seu potencial que lhes tenha sido destinado a viver, sem serem ameaçados pelos próprios humanos, como somos hoje. E que a vida dure até que um novo meteoro se choque com o Planeta. Afinal, a Natureza tem seu próprio movimento e não nos diferencia do restante dos seus entes. Para ela, somos apenas uma pequeníssima parte. Embora alguns tenham feito muitos acreditarem que éramos especiais e protegidos, porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Na realidade, nós criamos Deus à nossa imagem e semelhança. Quem nos criou foi a Natureza e ela é que é senhora do nosso destino.
Paulo Viana

4 comentários:

Ronilda disse...

Paulin querido,

A partir do título, que me lembra Érico Veríssimo, numa parte do texto que me levou aos belos escritos de Fernando Pessoa e tendo um final digno de Paulo Viana, o texto do dia 16 é um belo presente para a consciência e o coração. Mostra um sentimento otimista (ainda!) com o homem e com o futuro e, nota-se na conclusão do texto, outra conclusão: se "quem nos criou foi a Natureza", ENTÃO, somos criaturas de Deus!!POIS somente Ele poderia criar natureza tão perfeita quanta a nossa. bj no coração.

paulo disse...

Ronilda
Ainda bem que foi você que fez o comentário. Imagina se um texto desses cai nas mãos de algumas outras primas, as quais eu quero muito bem, certamente o puxão de orelha seria maior. Gosto dos seus comentários que sempre fazem o contraponto. Um beijo.

ines bruno disse...

Primo querido,

Desde q me conheço por gente...rsrs
observava a humanidade e pensava...
sem ter coragem de comentar c/ ninguém...(a imaginação e o ego do ser humano são ilimitados,pois criaram até DEUS). Vc traduziu c/ toda sofisticação e sabedoria meus pensamentos sobre a vida e o ser humano. Vou fundar teu fã clube!Mil beijos.
Inês

Paulo disse...

Inês, prima querida,
O bem-querer de vocês já me faz feliz. Meu desejo é sempre estar em contato com todos que amo, mesmo que seja por aqui.
Beijo