sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cais


Submerso no esplendor da vida
Dessa ilusão de dores tão reais
Vou navegando em busca de um cais
Em rota cega e desconhecida
Mas a esperança não está perdida
E nem o estímulo para navegar
Mesmo que nunca possa encontrar
Um porto firme para meu navio
Fico à deriva como um desafio
De ter um sonho pra realizar
Paulo Viana

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Com que roupa vestirei minha alma?


Com que roupa vestirei minha alma?

            Uma alma sem ilusões é uma alma nua.  A  verdade é que não dá para viver sob a tirania implacável da realidade todo o tempo.  Temos que eleger uma ilusão para movimentar nosso apego, para estimular a caminhada. Porque, se não for a expectativa de vencer, de se destacar em termos pessoais, na vivência social, material ou no reconhecimento público da evolução e do status, seja financeiro ou intelectual, sentiremos o vazio de não corroborar com os interesses e os anseios que a sociedade cria na perspectiva de manter seus valores e os fundamentos do sistema que associa o homem ao que ele tem como propriedade.
            Há uma escala de valores a serem conquistados que coincide com o acúmulo de bens materiais e com a evolução intelectual. A ilusão se manifesta no sentido de classificar essas conquistas como reais, anunciando seu desenvolvimento vertical enquanto ser humano, o que não é verdade. Para a sociedade, que tanto valoriza isso, é um fato, mas para o ser humano, como individualidade espiritual, não acrescenta nada. Pelo contrário, muitos homens se tornam arrogantes e pobres espiritualmente depois que conquistam um milhão de dólares ou um doutorado.
            A sociedade não valoriza, efetivamente, as virtudes, porque os meios não são importantes tanto quanto o são os fins. Interessa mais atingir as metas de mobilização social do que os métodos usados para lá chegar. Contudo, não quero dizer que a prática das virtudes de forma radical, apesar de ser a ilusão eticamente correta, seja a ideal para se buscar. Não é possível conviver todo o tempo com os extremos, quando se trata da raça humana.
            Temos, portanto, uma sociedade que valoriza duas principais ilusões: Os títulos e as propriedades. Ao mesmo tempo, não considera que os meios para atingi-los sejam tão importantes, o que nos leva a concluir que virtudes não são relevantes no processo de convivência social.
            E com que ilusão deveríamos vestir a nossa alma? Se renegarmos as ilusões acima apresentadas o que nos vai sobrar? Para os artistas e os desportistas, que para mim são conquistadores autênticos, pois tratam de superação individual e real, a glória é a ilusão merecida. Viverá com os louros até o fim da vida e deixará sua marca para os que vierem depois.  E os que não são artistas, nem desportistas, ou jamais ganharão um milhão de dólares ou chegarão ao doutorado? Terão que cultivar as ilusões religiosas. Doutrinas que limitam e, algumas, conduzidas muitas vezes por homens inescrupulosos, entidades que visam o poder e o dinheiro e outras que não passam de quadrilhas organizadas para explorar a ingenuidade e a carência espiritual das pessoas.
            Chegamos a um grande impasse: Se a alma sem ilusões está nua, com qual ilusão deveremos vesti-la? A minha alma, tenho tentado vestir com a ilusão do autoconhecimento. Ela me dá a oportunidade de evoluir espiritualmente, sem, necessariamente, ter que venerar uma entidade ou um conjunto de normas para o comportamento, que não é seguido pelos doutrinadores. Se será uma ilusão sempre, sem nenhuma perspectiva de se realizar, não sei, mas que, para mim, é a única que me faz sentir-se com a alma vestida, é.
Paulo Viana