terça-feira, 14 de abril de 2009

A Poesia e a Fresta do Cotidiano Indesejável.

Enquanto o camponês olha para o céu, desejando mais chuvas para garantir a lavoura, motoristas sintonizam o rádio impacientes no trânsito das grandes cidades, na expectativa de que os carros da frente andem um pouco e eles possam chegar e abraçar a tv ou o computador, com a esposa, ou os filhos, emitindo longínquas frases, na tentativa de um diálogo impossível, pois o telejornal anuncia a aflição do investidor, que, por sua vez, aguarda, angustiado, um sinal da elevação dos preços das ações, na Bolsa de Valores. Os banqueiros respiram tranquilos: os dólares salvarão os Bancos.
No quarto, os jovens alimentam o ego com a adição de mais um amigo do Orkut e driblam a solidão com uma descontraída conversa no MSN. Na mesa, ao lado, o livro de história do Brasil repousa, silencioso, encolhido em suas páginas, onde falsos heróis, ávidos pelo reconhecimento de suas façanhas, padecem pela indiferença e por serem substituídos pelo ídolo da música, do cinema ou do desenho japonês.
Os metrôs e os ônibus desfilam, lotados de pessoas vistas, pela maioria dos médicos, empresários, bispos e políticos como um aglomerado, cujo coletivo é mercado, embora carreguem suas dores, seus sonhos, sua humanidade e suas individualidades, fragmentadas pela produção tecnológica, que faz um produto para cada parte do corpo e vários falsos para o espírito.
A noite borbulha em sua efervescência, em suas liberdades modernosas, com a angústia exigindo viagens pelas drogas, ou sugerindo a catarse deliciosa nas mesas dos bares, nos romances noturnos, nas efêmeras companhias, que não encostarão a cabeça no travesseiro ao lado, quando a madrugada der a ordem para o retorno inevitável com o confronto consigo e a impertinente auto-avaliação, durante a vigília, antes da chegada do sono.
Discussões, aparentemente sérias, especulam sobre os desdobramentos do aquecimento global; tragédias familiares, transformadas em novelas cotidianas, despertam a atenção do grande público que parece aliviar-se na dor dos outros. A mídia provoca o terror, durante a programação, mas oferece o consolo nos intervalos, num jogo sutil, imobilizador da grande massa, e a revolução passa ao largo, achincalhada pela retórica onde a justiça material é um escopo ultrapassado e o justo é o direito de cada um votar em quem jamais vai defender os interesses da maioria.
O carro ainda está lá, no trânsito, com o motorista, seja londrino ou nordestino, contando os anos ainda a viver e comparando o patrimônio material com os dias já vividos, até ali. Outros pensam, cada qual com sua sutileza cultural, se a vida é só aquilo mesmo ou se há de aparecer uma grande novidade, seja vinda do céu, seja feita aqui na terra mesmo. Ambos dormem sob a pressão de viver seu sonho, de buscar um sentido verdadeiro e duradouro para a vida. Ambos querem ter a certeza de que a vida não é uma ilusão e o dinheiro realmente não mede o valor das coisas.
Os templos permanecem cheios de bons espíritos, conduzidos, muitas vezes por mercenários. As religiões subsistem com seus fundamentos e mandamentos perdendo a força, porque a civilização avança e a cultura se consolida, transformando princípios, antes inquestionáveis, em obsoletos. O Papa reza na internet e o Pastor aposta em novelas. Os monges buscam orientalização do mundo e, junto com boas filosofias, enviam seus incensos para mostrar que a fumaça pode ter um cheiro agradável. O Nirvana desafia o Espírito Santo, disputando, palmo a palmo, a atenção apaixonada dos devotos. Maomé observa sentado em seu chão untado pelo óleo negro e olhinhos puxados adormecem com Nova York em seu sonho de consumo.
O garoto, do quarto, aposta num jogo violento, para ele mais divertido do que a tabela periódica. O sol nasce e se põe e a lua brilha, em suas fases, e não pensem que os poetas a esqueceram. Sim, os poetas e as poetisas ainda existem, porque as palavras são de propriedade do espírito humano. Nenhum governante, tirano, mercenário, banqueiro, garoto agressivo, ou deficiente de sensibilidade pode impedir que os poetas e as poetisas sintam que o mundo não é só isso relatado acima. Da vida, amarga e brutal, em seu contexto coletivo, eles apuram a essência, que só o coração dos artistas pode sentir e dizer. Por isso, amem os poetas e a poesia, eles têm uma história mais verdadeira para contar do que a vista pela fresta do cotidiano indesejável. Porque, até a amargura, presente na poesia, vem apresentada com musicalidade, e a dor passa a ser a expressão ritmada da intimidade, da existência real, da verdade mais oculta, revelada pela liberdade de dizer que a vida não é uma ilusão. É uma dádiva, não recebida, é uma dádiva sentida.
Paulo Viana

8 comentários:

Gledson disse...

Paulinho,

Preciso urgente tampar esta fresta e abrir as portas da minha vida para a poesia. Não vou poder ir neste fim de semana, pois estarei fazendo as provas da faculdade.

Um abraço.

Paulo disse...

Oi, Gledson.
A poesia já abriu as portas e por elas você passou muitas vezes e ainda passa.
Abraço.

Felipe disse...

Paulo,

Sinto-me às vezes meio sufocado nesse cotidiano indesejável que o mundo e a vida impõe. Mas sinto neste instante, toda a luz que brota da tela do computador e invade as frestas do meu ninho, trazendo a poesia, nua e crua! Valeu. Vc é fd!

Paulo disse...

Oi, Felipe.
Existem vários mundos a serem contemplados. Entramos e saímos deles o tempo todo. Talvez o melhor seja só fingirmos estar nesse cotidiano opressor, embora estejamos, verdadeiramente, no mundo edificado pelos poetas.
Quando olho pela fresta, vejo a assustadora silhueta do nada, pois tudo se alimenta das imperfeições de maia.
Um abraço.

Ronilda disse...

Paulin querido.
Como comentar um texto MARA desses?
Primeiro, porque ele nos chega cheio de realidades conhecidas, mas ditas poeticamente com eficiência e eficácia, por você.
Depois, encontra-se abaixo dele, comentários escritos por dois poetas, bons na escrita e na sensibilidade, como gledson e felipe.
Não sou poeta/isa, porém a fresta pela qual avisto a vida, o cotidiano desejável (por que não?), é um poema colorido e agradável.
beijo aos poetas queridos.

Paulo disse...

Oi, Ronilda.
Você é uma das pessoas que fingem estar no contidiano indesejável, mas vivem poeticamente e por isso vislumbram a fresta por outro ângulo.
Beijo.

Isabel Branco disse...

Paulo

Ainda que prosa foi a sua alma de poeta que escreveu este texto.

Não sei se sou poeta mas tenho a minha poesia! Sem ela sei que sufocaria, neste mundo tão atribulado que o homem gere. A poesia brota da natureza, do divino, das emoções, e cabe aos poetas senti-la e repassá-la. Mesmo, aquela que define o que não gostamos.

O último poema que coloquei no meu blog "Cansa-me" é um testemunho nesse sentido.

Um beijinho.

Paulo disse...

Oi, Isabel
Seus poemas estão entre os mais bonitos que já li. E já li muitos. Você é Poeta ou Poetisa, das melhores.
Acho bonito o termo Poetisa, mas não se usa muito nos tempos de agora. Eu ainda o uso.
Poeta ou Poetisa, seus poemas são parte da inspiração para escrever esse texto.
Um abraço.