terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Tecnologia e o Abraço

Está surgindo no mercado o primeiro robô sexual, que interage até com o toque, podendo “sentir” orgasmos. O homem continua brincando de Deus. A máquina ocupa cada vez mais espaço e a vida perde, pouco a pouco, a profundidade, emergindo para a superfície da produção científica. O outro se torna apenas o outro e o indivíduo quer experimentar suas fantasias pela tecnologia. Os dedos buscam teclas solitárias que se unem para formar o nome do amigo distante. A vida pulsa em pessoas sozinhas e nenhum peito alcança o outro peito para que as batidas dos corações se juntem formando o abraço. É isso que falta. Todos se falam várias vezes por dia, no Orkut, no MSN, no Telefone, mas falta a presença da voz, do olhar, do cheiro, do abraço.

Neste momento, que escrevo, falo através dos dedos. O silêncio, onde estou, é profundamente marcado pelo barulho interminável do processador e do teclado. Ironicamente, desejo que minhas palavras, que se deitam no editor de textos, sejam lidas por muitas pessoas. As que se sentem mais sós saberão que eu queria mesmo era pronunciar palavras, não apenas símbolos. Queria mesmo era falar palavras untadas pela emoção e com o visto indispensável do coração. Que olhos e ouvidos estivessem atentos, e a boca ávida para também dizer que estava ali, a mando de outro coração, para conversar com cordas vocais e não com caracteres originados do sistema binário, processados e transformados em mensagens via internet.

Há muito se cultiva o mito de que as máquinas dominarão os homens. Dominarão? As máquinas já dominam. O computador, a TV, o telefone, o automóvel, os videogames e muitas outras. Imagine viver sem elas. Imagine definir sua rotina sem elas. Você conseguiria? E lembre-se do começo do texto: Até robô sexual já fizeram.

Ao contrário do que pensa, a humanidade não conduz a tecnologia, é conduzido por ela. Ela é quem determina o que o homem vai criar. Ela é quem define para onde devemos seguir, embora ainda não saibamos aonde vamos chegar.

Ninguém sabe, ainda. como tudo isso vai terminar. Eu sei, no entanto, de onde estamos nos afastando. Sei que cada vez mais fica distante o desejo de que prevaleça o sentido de humanidade e o sonho do triunfo da epopéia terrestre. Não acreditamos mais que venceremos a angústia da finitude, pela fé. Não podemos conceber a eternidade pela ciência. Resta-nos usar toda a “inteligência” para a criação de máquinas, máquinas e mais máquinas. Até máquinas que possam corresponder ao apelo instintivo do sexo. Assim, podemos garantir prazer. E quando estivermos esgotados, de tanto prazer, morreremos sozinhos, embora todos acompanhem nosso desenlace pela internet.

E o amor? Ah, dirá o internauta, eu amo meu robô. O amor por pessoas é coisa de poetas, de sonhadores que vivem em um mundo de fantasias.

Quero viver muitos anos. Só não quero viver o suficiente para um dia ouvir um filho, geneticamente perfeito, perguntando à mãe: “Mamãe o que é um abraço?

Paulo Viana

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010

Não sei quem distribui a alegria, a paz a saúde e o amor. Não sei também qual o critério usado para a distribuição. Tenho certeza, no entanto, que a quantidade existente não é suficiente para todas as pessoas, nem para todo o tempo, pois vemos muita discórdia, desamor, doenças e tristeza.

Inegável é, mesmo que desejemos para todas as pessoas do mundo o melhor possível, que muitas viverão momentos terríveis em 2010. Isto é apenas uma constatação.

É improvável que um dia todas as pessoas tenham sua dose justa das coisas boas que possamos sentir. É incômodo imaginar que não haverá alegria, paz, saúde e amor para todos e aceitar o dinamismo dos contrários como motor da vida e do mundo.

Então essa tarefa, que nos cabe a cada fim de ano, de desejar para todos um Feliz Ano Novo é inglória, pois só atingirá a alguns. Mesmo assim desejamos, embora silenciosamente dedicando o desejo para aqueles que estão mais próximos.

O que poderíamos fazer a respeito?

Existe uma palavra que pode minimizar a desventura dos que não serão aquinhoados com sua dose de boas coisas: Solidariedade. Isso mesmo. Se estivermos entre aqueles privilegiados que serão contemplados com uma boa dose de alegria, de paz, de saúde e de amor devemos compartilhar com os não contemplados.

Levemos, então, alegria para os que estão deprimidos; saúde para os debilitados; paz para os belicosos e amor para os mal-amados. Não basta desejar, temos que agir, pois a alegria aumenta para quem alegra, a saúde se fortalece para quem cura, a paz se consolida para quem pacifica e o amor engrandece a vida para quem ama.

Por isso, caros amigos, permitam-me mudar a velha expressão que repetimos todo ano e ao invés de dizer “Feliz Ano Novo” quero dizer: Solidário Ano Novo! Afinal, se deixarmos que o acaso continue essa distribuição nada vai mudar em 2010, e todos nós queremos um ano mais justo. Pois vamos distribuir solidariamente o que o ano trouxer de bom para nós. O mundo certamente estará melhor em 2011.

Paulo Viana

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Gases, Sinuca e a Dinamarca

Um silêncio... Uma fuga estratégica da palavra; Um momento sem reflexão, mergulhado no mundo dos filmes, da música, do esporte. Eis que ergo os olhos e vejo a conferência sobre redução de gases que provocam o efeito estufa e o aquecimento global. Assunto palpitante. As TVs o exploram com intensidade, provocando o terror e tornando–o mais nebuloso, sem querer usar trocadilho. Os técnicos derramam suas verborragias e seus termos científicos, e o telespectador comenta nas esquinas ou tomando uma cerveja anunciada logo depois da entrevista com o cientista. “Quem se importa com isso? O mundo vai acabar mesmo em 2012”, diria o profeta do botequim vizinho à universidade.

Que farsa bem articulada! Eles estabelecem percentuais de redução da emissão de gases tão precisos que, nos menos avisados, causam um alívio e uma expressão silenciosa: ”Puxa, ainda bem que vão salvar o Planeta”. No fundo o que eles querem mesmo salvar é o projeto de poder dos seus partidos, seus grupos, seus financiadores. Ninguém salva mais esse Planeta enquanto existir seres humanos morando nele. Quem vai defender interesses contrários aos das empresas que financiam campanhas, poluem, degradam e exploram o inofensivo Planeta Terra? Os países ricos? Os políticos? A política é o contraponto da ética. Os políticos não se preocupam, de verdade, com a situação em que se encontra a atmosfera. Preocupam-se, de fato, com a sofisticação da retórica, para demonstrar que se interessam em defender a vida e sua continuação, nos próximos séculos, mesmo sabendo que não estarão lá. Dá para acreditar que homens, cuja personalidade tem como base o egocentrismo, estão preocupados como viverão os habitantes futuros da Terra?

Tudo bem, sejamos mais tolerantes. Admitamos que saia alguma proposta desse bendito encontro. Vamos reduzir em 50% a emissão de gases, em média, considerando que os percentuais são diferentes para cada país. Alguém vai ter que pagar essa conta. Volto a perguntar: Os países ricos pagarão? Não. Certamente terão que reduzir a população do Planeta. Como? Não sei, mas misteriosos vírus têm aparecido e têm feito seu trabalho. E a cura do câncer? Por que não descobriram até hoje? Será que é tecnicamente impossível? Eu particularmente não sei, porém deixo essa pergunta no ar.

Não sou partidário da teoria da conspiração, mas não acredito na boa vontade de políticos. A política é a arte da manutenção do poder. Não existe mais vaga para países ricos. Os emergentes serão sempre emergentes e os pobres podem chegar à categoria de “em desenvolvimento”. Os ricos sufocarão em suas desconfortáveis estufas e, certamente, vão querer respirar ar puro nos escombros da desastrada Transamazônica. O mundo está em uma sinuca de bico, o Brasil é a “bola da vez” e a Amazônia é o pano verde dessa ridícula epopéia humana que culminará com a pergunta: Afinal, quem inventou mesmo esse tal ser humano?

Paulo Viana

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O Simples e o Misterioso

As primeiras cigarras já anunciam o fim da primavera e o céu se acinzenta, acalmando o sol. O ano passou rápido e já não sei se é porque sou adulto e não mais tenho o sentimento de eternidade das crianças. O tempo não para, até porque ele não está em movimento. Está em movimento o espaço, crescendo com a expansão do universo. Enquanto isso, nuvens brancas pousam em meus cabelos me advertindo que já se vão os anos e está na hora de aprender. Tenho aprendido algo sobre a vida? Não muito. Descobri que Deus é uma opção e não uma certeza; Descobri que liberdade é apenas uma arma da boa retórica e jamais estaremos totalmente livres, pois, como diria Kant, não somos senhores em nossa própria casa; Que igualdade é uma utopia válida, para diminuir as injustiças; O mundo é finito em sua dimensão tempo/espaço; O amor é o que sentimos por nós através de outros.

Afirmo, no entanto, só existir uma verdade absoluta: Não existe verdade absoluta. Por isso, o que aprendi pode ser uma falsa lição e eu posso não ter aprendido nada mesmo.

Que me perdoem os quietinhos, estabilizados em suas vidas materiais; Convictos em seus valores intelectuais; Os religiosos, crentes na vida eterna; Os filósofos; Os materialistas, mas não posso me conformar em atravessar toda a vida sem aprender alguma coisa que me faça renunciar à inquietação. E não venham com frases de Lao Tsé, de Confúcio, da Bíblia ou de sábios contemporâneos, pois são apenas frases.

E se não existem verdades absolutas como posso aquietar meu coração? A alegria, a paz, a vida saudável, a chuva, o vento, as flores, os pássaros, a música, a arte, os esportes, o sorriso dos outros, a vida simples e o sentimento, em sua dimensão verdadeira, que nosso coração reserva para aqueles que dizemos amar. Tudo isso prova a realidade da vida e é suficiente para valer a pena viver.

Há, porém, momentos de tristezas, quando surgem as tempestades, aparecem ciclones, os espinhos nos ferem, os pássaros são aprisionados ou mortos, pessoas gritam em desespero, os bandidos vencem parcialmente, as competições viram guerras, os outros choram e a vida é complicada com as artimanhas do poder e da ganância. Nem por isso a vida deixa de ser bela, pois todas essas coisas são o contraponto com a função de nos fazer valorizar o momento em que o alívio empurra as dores para o esquecimento e nos repõe no papel de construtores do mundo do bem, mais fortes e experientes.

Se não for esta a principal lição que a vida nos ensina, deve haver um segredo e espero um dia descobrir. A grande questão é: existe mesmo tal segredo? Há mais coisas, não reveladas, que se contrapõem à simplicidade da natureza e das boas realizações humanas? Não creio que exista tal mistério. Penso como Joshep Campbel: O mundo é assim porque é.

Sigo, então, com o espírito de Dom Quixote, vendo, em moinhos gigantes, o engrandecimento da alma humana e um final feliz para essa raça tão marcada pelos equívocos cometidos, em sua trajetória, ao longo da história da vida neste Planeta.

Quem sabe se no fim da estrada, ao olhar para trás, eu não compreenda definitivamente, e aceite, ser o coração feito para inquietar-se e, mais ainda, o mistério é sabermos que não há mistério, mas preferimos acreditar que há? E isso nos torna cegos, imaginando o pote de ouro, quando a beleza está no próprio arco-íris?

Paulo Viana

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Dinamarca e o Século Vinte e Um

Sob o ritmo contagiante do Reggae, tento iniciar este texto que teve como tema, em meus pensamentos, o século vinte e um, com suas novidades sociológicas e políticas, onde o conceito de nação perde força, dando espaço aos blocos regionais, as minorias se destacam e chegam aos governos, mas há certo marasmo em termos de grandes acontecimentos. É um século muito midiático, sem a emoção da movimentação popular, estudantil e artística; sem grandes impactos no campo científico, até porque nada mais é inesperado. Ainda usamos muitos conceitos, idéias, discursos, erros e valores do século vinte. Podemos considerar que estamos apenas no início do novo milênio, mas ainda estamos iludidos com as promessas que a máquina e o capitalismo anunciaram no começo da revolução industrial. Precisamos pensar enquanto humanidade. Enquanto espécie que aponta para iniciar o processo de extinção. Por isso devemos planejar o século.

Já conquistamos a razão e a usamos como bem entendemos. Embora nunca levemos em consideração o bom-senso, que deveria vir junto à ciência. E não vem, porque o intermediário é o capitalismo, propulsor da ganância, do consumismo, do lucro e da desumanização das relações entre as pessoas. Pois se já conquistamos a razão não vamos deixar que arquétipos, instintos, medo e a voluntariedade da alma deem as cartas, como o fizeram no século vinte.

Sei que não podemos extinguir a loucura, o stress, as injustiças, as desigualdades, a desonestidade, a ganância, a insensibilidade e todos os males da civilização, acumulados em milhares de anos, em um passe de mágica, mas podemos, pelo menos, iniciar o processo de desconstrução do século vinte, nos seus aspectos mais equivocados, salvando, claro, as grandes contribuições daquele século que o tornaram um maravilhoso período de realizações.

Talvez o exemplo venha do que seria outro tema do texto de hoje: A Dinamarca. E porque a Dinamarca? Imaginem um país em que um terço da população anda de bicicleta, por consciência do bem que faz ao corpo, ao espírito e, principalmente ao meio ambiente; O desempregado recebe noventa por cento do salário, do governo, enquanto é recolocado no mercado de trabalho; A alíquota do imposto de renda chega a cinquenta por cento, mas o governo oferece Saúde, Educação, Creches e todos os serviços públicos com muita qualidade; A licença gestante é remunerada e dura doze meses; Os familiares fazem refeições juntos; O consumismo é desvalorizado e as relações entre as pessoas são mais importantes do que o acúmulo de bens materiais; O índice de criminalidade é baixíssimo e as pessoas se sentem tranqüilas; E, pasmem, é o país menos religioso do mundo. Estes dados se referem à Dinamarca, segundo depoimentos de pessoas que nasceram e vivem lá. Em um primeiro momento, nos dá a impressão que de tão correto parece ser chato. Mas não é isso que queremos para todos os povos? Podemos ter índices assim sem, necessariamente, perdermos a alegria que nos é peculiar. Nenhum povo precisa ser triste para ser certo. Os homens verdadeiramente inteligentes devem combinar razão com alegria. Deixar que a emoção complete a atitude racional e nunca a elimine.

Sei que, assim como muitos países, inclusive do chamado primeiro mundo, estamos longe desses índices. Sei também que, se não iniciarmos um processo profundamente comprometido com uma verdadeira evolução humana, amadurecendo e aprendendo com os erros dos séculos passados, estaremos fadados à extinção, sem que tenhamos, enquanto espécie, chegado à idade adulta.

Triste é dizer isso às pessoas que vivem segregadas por diferentes deuses, por interesses comerciais das grandes empresas, por políticos egoístas e imediatistas, insensíveis e mortalmente comprometidos com os prazeres do consumismo e da superficialidade da vida.

Será que a Dinamarca está nos apontando um caminho? Será que a humanidade terá tempo de aceitar a sua ignorância, no passado, e planejar, inteligentemente, a vida daqui para frente?

Por fim, devo confessar não acreditar que os condutores da política e dos negócios, no mundo, reconheçam esse conceito que tanto uso: Humanidade. Podem até dizer que sou ingênuo, porém jamais deixarei de pensar que a vida, seja minha, de um pássaro ou até de uma árvore, é uma única vida. E como somos, nós humanos, os únicos seres que desequilibram o planeta, somos nós que precisamos evoluir. Portanto, desperta século vinte um! Cresce humanidade!

Paulo Viana