segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Diálogo Imaginado

Por muitas vezes disse-me o Sol, que, a despeito de deixar-se levar, diariamente, pela envolvente dança dos astros, sempre voltará, tão brilhante quanto antes, tão promissor quando o fora, ao provocar a verve do poeta, em crepúsculos inimagináveis. Quantas vezes disse-me, ele, que, ao nos deixar a noite, deixa também a missão de refletirmos profundamente sobre o dia, sobre nossas ações, nosso jeito de contemplarmos o outro, de amar, de construir riqueza sem destruir a vida, de compreender a Natureza como única possibilidade de sobrevivência.

Todo dia, quando nos brinda com matizes que só seus pincéis, untados de luz, são capazes de pintar, justamente ao deixar seu turno neste lado, provocando, incansavelmente, auroras belas em terras orientais, ele se despede com sutis mensagens, com lembretes profundos, sobre a marca imponderável do tempo. Como nos alerta, essa estrela, sobre o quão pequenos somos e, ainda, o quão grande poderíamos ser, se o nosso espírito seguisse a lógica simples do respeito ao equilíbrio, ao desejo de eternizar-se, atributo indelével que permeia a essência da vida!

Pudera eu, Sol, falar a linguagem escrita nesse azul, luminosa ilusão infantil, para te segredar sobre nossos descaminhos; Sobre como nos desviamos da rota de um projeto de felicidade simples para o desastre, em busca do inalcançável escopo de um poder absurdo, desumano, antinatural, equivocado, movido em dimensão sem controle e fadado ao inacreditável desfecho do suicídio da nossa própria espécie.

Mesmo assim, há os que acreditam e lutam por um despertar do sono torpe. Há os que celebram a música, a poesia, a cor do ocaso, a alegria por estar vivo e o amor; Os que acreditam na paz; Os que expressam sua indignação pelo estado em que deixaremos a casa dos que virão depois. Há, por fim, aqueles que entendem a trajetória do sol, não apenas como o passar dos dias, mas como uma calorosa mensagem sobre o momento presente e, sobretudo, os próximos momentos, pois ele, Sol, com certeza estará lá. Temo que poderão existir crepúsculos, gratuitos cartões postais, sem que haja uma pessoa para admirar.

Paulo Viana

domingo, 8 de agosto de 2010

Dia dos Filhos

Nós, os pais, imaginamos que nossa experiência possa conduzir a vida dos filhos de forma que eles não cometam os erros que supostamente tenhamos cometido. É natural e obrigatório, desempenhando esse papel de Pai, querermos o melhor para suas vidas, não só com a intenção de exercer a responsabilidade e ficar com a consciência tranquila. Porém, quero crer que a maior parte do esforço em mostrar nossas experiências, citar os erros, enumerar os acertos, enfim, indicar o”caminho das pedras”, é desconsiderada. Os jovens têm seus próprios horizontes. Os valores são outros, o momento é historicamente diferente e as perspectivas são diversificadas. Não podemos exigir que sigam o mesmo caminho que seguimos. Podemos, sim, dizer como foi nossa caminhada.

Seria bom se, indicando o rumo que entendemos como ideal para a vida dos nossos filhos, eles não ficassem fragilizados pela falta da vivência e pela oportunidade perdida de conviver com a realidade crua; com o experimentar do inesperado; com a exigência de uma escolha rápida; com a necessidade de desistir e tomar outro rumo e com a busca de realizar seu próprio sonho.

Nossos filhos não precisam que digamos qual o caminho que eles têm que seguir. Eles precisam da oportunidade para que possam fazer suas próprias escolhas, confiantes em suas atitudes, corretos em seus comportamentos e fortes para erguer-se de cada queda que venham a sofrer. Para isso, é preciso que sintam o amor que temos por eles. E não basta dizer que os amamos. Não é suficiente prover de todos os bens materiais que desejam. É preciso mostrar, a cada dia, que esse amor é verdadeiro: não superprotegendo-os, mas oferecendo atenção, carinho, disciplina, exemplos e, sobretudo, perdão.

Devo dizer, no entanto, que cada experiência é única. Cada relação entre pais e filhos tem suas próprias características e seu dinamismo. Não há um manual que possa ser aplicado a todos os casos. Mas podemos dizer, com certeza, que quando nossos filhos tiverem seus próprios filhos dirão: “Agora eu sei o que meus pais queriam me dizer”.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Inverno

Não bastasse a tirania da razão, impondo-se contra doces pecados, o coração congela-se no peito e a vida passa a ser apenas a burocrática sucessão de dias. Não há medo... Muito menos, desejo. Tragédias são apenas notícias... Nada a lamentar, nada a perdoar e o choro é fonte esquecida de lágrimas ressequidas, contraponto inexistente de um riso que também não se apresenta. Falta a dor e a saudade; Falta a emoção e a tristeza; Falta a paixão. O que faz um poeta que não sofre? Quietude não é estado para o espírito de quem quer escancarar a vida em poemas. O que faz um poeta que olha para o mundo e vê gravuras sem brilho? O segredo do verso é sua origem arraigada na paixão, no desejo de arrancar a própria alma e transformá-la em poesia. No olhar para a lama e ver flores; No sentir o amor espreitando o que na verdade não passa de delírio.

E sendo este momento um lapso de uma vivência continuamente forjada na indignação, no arrebatamento, nos sentimentos que, como água de uma ilha, vêm em pequenas ondas, molhando, por vezes, o coração, aguarda-se o retorno da verve, da inspiração, para que novamente as palavras obedeçam a ordem e se organizem em figuras poéticas.

Enquanto isso, constata-se a fleuma, a indiferença, que, para o vate, não pode ser impunemente ignorada. Há de ser transformada em dor; Há de ser confundida com uma motivação profunda, como se fosse dever da alma oferecer seus mistérios para quem escreve; Como se fosse obrigação do mundo acionar seus emissários para trazer do invisível, porém inevitável universo da arte, o lirismo da vida.

Esse vazio passa, porque não se pode esgotar, de uma só vez, todos os sonhos que cabem numa vida; Essa ausência de efervescência sanguínea alterna sempre com plenos momentos de exacerbação emocional. Quando elevar-se a temperatura no peito virá a dor, o grito, a vontade de dizer, de afirmar, de contestar, de escrever...Com a força necessária para que outros espíritos sintam as palavras como pétalas, suavemente derramadas, porém com matizes fortemente carregados de sentido.

Paulo Viana

terça-feira, 1 de junho de 2010

Contemplação

Tenho buscado nas palavras a expressão exata dos frutos da minha contemplação, durante essa viagem alucinada por entre impressões sensoriais, sentimentos, pensamentos, observações e relações que é a vida. Sofro de uma inquietação perturbadora que me deixa aflito por querer sorver todo o sulco de cada instante, toda a essência do tempo em que meu corpo e minha alma estão envolvidos. Minha ânsia cresce quando vejo sorrisos, ouço canções ou percorro o caminho que se abre entre mim e a profundidade de cada olhar, dos que seguem, também perplexos, nesse caminhar.

Bem que eu poderia estar quieto, humildemente entregue à condição impotente de um mero ser humano, incapaz de corroborar o inefável mundo sentimental com frases elaboradas, mas me é muito cara, esta única e exclusiva oportunidade de estar aqui, vivo.

E se as canções me dizem coisas, se os amigos me contam suas dores, seus amores, seus sonhos, lutas, vitórias, tristezas e alegrias, silencio e escuto, porque sei que ali estão fragmentos do mundo, estão pedaços de todas as vidas, pequenos grãos de toda a existência semeada, que podem muito bem me dar uma luz, para que eu possa desentortar meu caminho e corrigir meu rumo, me aproximando do único destino para onde devo ir, que sou eu mesmo. Porque eu estou em cada um e cada um está em mim, assim como todos nós estamos nessa experiência única.

As palavras jamais esgotarão o que elas pretendem significar, mas sempre sinalizarão a nossa presença, vivos; Sempre manifestarão a existência enigmática de nossa intimidade. Cabe-nos, portanto, em olhares parceiros, como dois espelhos que se olham, buscar no outro o complemento, para, finalmente, desvendarmos esse maravilhoso mistério. E se o mistério não puder ser solucionado, resta-nos a poesia, para que, juntas, as palavras nos mostrem o lirismo da vida, mesmo que não a traduzam em seu significado mais puro.

Paulo Viana

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fé nas Utopias

Eu sei que a complexidade do ser humano não pemite que tenhamos padrão ideal de comportamento e que o sonho da felicidade, da paz, do equilíbrio e de outras quimeras absolutas não passa de necessário buscar da utopia. Sei, também, que a vida é forjada no viver concreto, no se jogar no mundo, planejando, quando dá, ou ariscando quando podemos; Que a ética pura é quase impossível; Que as relações se consolidam no confronto de almas diferentes e na dinâmica de interesses muitas vezes não revelados.
A vida é, ainda, muito misteriosa e encanta a todos, porque surpreende, eleva, descontrói, maltrata, alegra, exalta e pune. Só a morte desencanta.
E se não fosse o sonho? E se não desejássemos encontrar um termo definitivo para a inquietude, insatisfação, incoerência, desvirtuamento, que pudesse engendrar espíritos plenos de virtudes, honestos em sua totalidade? Imaginemos um ser humano cem por cento honesto...é possível? Seria "normal"? Talvez não, mas precisamos querer que ele exista para chegarmos a um percentual aceitável de honestidade. Queremos que a ética absoluta seja exigida, pois assim vamos ter comportamentos aproximados de uma civilização moralmente perfeita. Assim, fica mais plausível a possibilidade da justiça.
Temos a obrigação de querer essa perfeição, de exigir, não só dos homens públicos, mas, sobretudo, de nós mesmos, embora saibamos que somos animais vacilantes, vulneráveis, dependentes do funcionamento psico-físico-químico do noso corpo e da nossa mente. Porque, se não insistirmos na busca das utopias, se não mantivermos a esperança em um ser humano mais evoluído, menos egoísta, com uma concepção mais humanista do que é ser humano, de que adiantará viver? Viveremos pelo prazer imediato? Pelo consumismo? Pelas paixões efêmeras?
Considerando, por fim, que Deus (a maior invenção dos humanos) não conseguiu cumprir a tarefa de consolidar esse espírito idealizado, que buscamos, resta-nos acreditar que o amor vai, pelo menos, adiar a construção desse ser humano desiludido, egoísta, individualizado, sem esperança e suicida, que já sinaliza a sua chegada. Não podemos, jamais, abrir mão das utopias.

Paulo Viana