sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Dinamarca e o Século Vinte e Um

Sob o ritmo contagiante do Reggae, tento iniciar este texto que teve como tema, em meus pensamentos, o século vinte e um, com suas novidades sociológicas e políticas, onde o conceito de nação perde força, dando espaço aos blocos regionais, as minorias se destacam e chegam aos governos, mas há certo marasmo em termos de grandes acontecimentos. É um século muito midiático, sem a emoção da movimentação popular, estudantil e artística; sem grandes impactos no campo científico, até porque nada mais é inesperado. Ainda usamos muitos conceitos, idéias, discursos, erros e valores do século vinte. Podemos considerar que estamos apenas no início do novo milênio, mas ainda estamos iludidos com as promessas que a máquina e o capitalismo anunciaram no começo da revolução industrial. Precisamos pensar enquanto humanidade. Enquanto espécie que aponta para iniciar o processo de extinção. Por isso devemos planejar o século.

Já conquistamos a razão e a usamos como bem entendemos. Embora nunca levemos em consideração o bom-senso, que deveria vir junto à ciência. E não vem, porque o intermediário é o capitalismo, propulsor da ganância, do consumismo, do lucro e da desumanização das relações entre as pessoas. Pois se já conquistamos a razão não vamos deixar que arquétipos, instintos, medo e a voluntariedade da alma deem as cartas, como o fizeram no século vinte.

Sei que não podemos extinguir a loucura, o stress, as injustiças, as desigualdades, a desonestidade, a ganância, a insensibilidade e todos os males da civilização, acumulados em milhares de anos, em um passe de mágica, mas podemos, pelo menos, iniciar o processo de desconstrução do século vinte, nos seus aspectos mais equivocados, salvando, claro, as grandes contribuições daquele século que o tornaram um maravilhoso período de realizações.

Talvez o exemplo venha do que seria outro tema do texto de hoje: A Dinamarca. E porque a Dinamarca? Imaginem um país em que um terço da população anda de bicicleta, por consciência do bem que faz ao corpo, ao espírito e, principalmente ao meio ambiente; O desempregado recebe noventa por cento do salário, do governo, enquanto é recolocado no mercado de trabalho; A alíquota do imposto de renda chega a cinquenta por cento, mas o governo oferece Saúde, Educação, Creches e todos os serviços públicos com muita qualidade; A licença gestante é remunerada e dura doze meses; Os familiares fazem refeições juntos; O consumismo é desvalorizado e as relações entre as pessoas são mais importantes do que o acúmulo de bens materiais; O índice de criminalidade é baixíssimo e as pessoas se sentem tranqüilas; E, pasmem, é o país menos religioso do mundo. Estes dados se referem à Dinamarca, segundo depoimentos de pessoas que nasceram e vivem lá. Em um primeiro momento, nos dá a impressão que de tão correto parece ser chato. Mas não é isso que queremos para todos os povos? Podemos ter índices assim sem, necessariamente, perdermos a alegria que nos é peculiar. Nenhum povo precisa ser triste para ser certo. Os homens verdadeiramente inteligentes devem combinar razão com alegria. Deixar que a emoção complete a atitude racional e nunca a elimine.

Sei que, assim como muitos países, inclusive do chamado primeiro mundo, estamos longe desses índices. Sei também que, se não iniciarmos um processo profundamente comprometido com uma verdadeira evolução humana, amadurecendo e aprendendo com os erros dos séculos passados, estaremos fadados à extinção, sem que tenhamos, enquanto espécie, chegado à idade adulta.

Triste é dizer isso às pessoas que vivem segregadas por diferentes deuses, por interesses comerciais das grandes empresas, por políticos egoístas e imediatistas, insensíveis e mortalmente comprometidos com os prazeres do consumismo e da superficialidade da vida.

Será que a Dinamarca está nos apontando um caminho? Será que a humanidade terá tempo de aceitar a sua ignorância, no passado, e planejar, inteligentemente, a vida daqui para frente?

Por fim, devo confessar não acreditar que os condutores da política e dos negócios, no mundo, reconheçam esse conceito que tanto uso: Humanidade. Podem até dizer que sou ingênuo, porém jamais deixarei de pensar que a vida, seja minha, de um pássaro ou até de uma árvore, é uma única vida. E como somos, nós humanos, os únicos seres que desequilibram o planeta, somos nós que precisamos evoluir. Portanto, desperta século vinte um! Cresce humanidade!

Paulo Viana

domingo, 18 de outubro de 2009

A Audiência e a Inconveniência

Qual o limite entre a transparência e a inconveniência? Onde termina a vida pública e começa a vida privada? Até que ponto a imprensa tem o direito de lutar pela audiência em detrimento da privacidade das pessoas? Para ser repórter é preciso ser chato?

Qualquer dia desses vou perguntar a algum jornalista se está na grade curricular da faculdade de comunicações uma cadeira que ensina a como ser chato e inconveniente. Se há um juramento de deturpar os fatos nem que isso venha a prejudicar gravemente alguém inocente. Se o repórter tem o direito de ridicularizar as pessoas ou deixá-las constrangidas. Se ele pode distorcer os fatos, modificando, através da retórica, o conteúdo de uma notícia, tornando-a mais viável para despertar a atenção do grande público.

A verdade é que o livro 1984, de George Orwell, tornou-se uma profecia e sua simbologia se efetiva, hoje, através dos meios de vigilância, seja da imprensa, seja da internet, ou da polícia e dos próprios sistemas de inteligência dos governos. O grande irmão está de olho e você não está livre para viver discretamente, principalmente de for alguém de vida pública. Alguém diria: O controle das pessoas é bom porque assim evita-se crimes. Isso seria bom se soubéssemos quem poderia cometer um crime a qualquer momento. Porém, a maior parte da população, principalmente as personalidades públicas, são pessoas pacíficas, que querem fazer sucesso, naturalmente, mas, também, querem ter sua privacidade. Claro que algumas querem estar em evidência nem que seja de forma ridícula.

Há uma guerra no mundo da imprensa. Uma guerra pela audiência. Esta atrai anunciantes que trazem dinheiro e isto é o que interessa, porque o poder emana do dinheiro. E quem não se submeter a esse princípio será perseguido até ser destruído. E a massa acredita, pois os comunicadores são charmosos, eloquentes e transmitem muita credibilidade. Claro que nem tudo é manipulação. Há os momentos importantes, em que a imprensa é fundamental para o esclarecimento de fatos. O que merece retificação é o excesso. Os meios de comunicação se excedem, porque a audiência é mais importante do que a verdade. É esta inversão que torna questionável as atitudes de jornalistas e seus patrões.

O caso de Belchior é emblemático. Bem que o Fantástico poderia deixá-lo em paz. Como, se os programas das outras emissoras estão se aproximando no IBOPE? Logo a Globo que tem uma estrutura de amedrontar qualquer concorrente? Que pode vasculhar a vida de quem quer que seja e apresentar, como se fosse propriedade sua, com o charme sarcástico de seus apresentadores? Para mim é a psicopatia vestindo o manto da programação televisiva. A tragédia falada com a inflexão que beira um orgasmo da oratória. Belchior foi incomodado, e daí? O que interessa é que houve um incremento em alguns pontos do IBOPE e os anunciantes vão preferir o Fantástico.

Os números são hoje mais importantes do que a vida. A privacidade, a integridade, a individualidade, são direitos flexíveis, pois o que é determinante é o quanto cada um desses direitos vai contribuir para o aumento dos números. Seja nas estatísticas dos crimes, nas celebridades com problemas, na quantidade de espectadores que se interessarão por eles. E a imprensa, o famoso quarto poder, acaba por se transformar, em nome desses números, em um tirano, cuja ética se esgota na falsa intenção de buscar a transparência e a informação para o grande público.

Sou contra a censura, mas isso não implica em dizer que sou a favor da chatice, da inconveniência e da insensibilidade dos meios de comunicação, tratando a vida alheia como se fosse instrumento de manipulação para o incremento da audiência. Acredito que esta é uma discussão em aberto.

Paulo Viana

sábado, 10 de outubro de 2009

A Vida é um Sonho

Busco um filosofar sem a resignação budista e nem a esquizofrenia franciscana, que prove a desnecessária prática da sofisticação da vida, que sistematize a simplicidade e demonstre os fundamentos de uma moral perfeita, sem relativismo, sem parcialidade, com a ética precisa do comportamento justo por excelência, com o encaixe ideal das reações emocionais. O sistema filosófico humanamente perfeito, sem moral religiosa ou interesse de classe, raça ou nação.

Procuro segredos da natureza, onde os padrões da vida seguem seu curso normal, sem a sujeira da cultura ou as armadilhas da razão. Desejo descobrir se houve um momento zero de equilíbrio absoluto, sem o desvirtuamento da ação humana, sem surpresas dos fenômenos naturais e se ainda é possível a retomada desse momento.

Gostaria de conhecer o ser humano cuja agressividade é canalizada para ações pacíficas, as frustrações não tenham nenhuma importância e o medo não caiba em seu cotidiano, porque as ameaças não existem.

No entanto, sei que tudo isso jamais existirá e temos que viver com a instabilidade do corpo e do espírito humano, as incertezas filosóficas, as intempéries naturais, a imprecisão moral, o relativismo ético e o inevitável caos provocado pela civilização errante que nos tornamos. Seria esse o melhor dos mundos? Somos Cândidos de Voltaire? Estaríamos forçados ao reconhecimento de que não temos e jamais teremos o controle sobre a vida e a natureza?

Pobres seres humanos! Condenados estamos a admitir a impotência e a incompetência sobre os rumos da vida. Que destino terá a vida? Sucumbirá?

Ainda bem que existe a música, porque nela identificamos conteúdos de um mundo perfeito, onde melodia, harmonia e ritmo unem-se para a materialização da linguagem universal dos sentimentos que nos fazem seres especiais, nos confortando e nos conformando; Entretendo-nos e divertindo; Nos acalmando e nos levando ao triunfo; Vencendo em um mundo transcendental, pois no mundo real fomos derrotados pelo sonho de nos transformarmos em nossa maior criação, ou seja, Deus.

Paulo Viana

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Assuntos Polêmicos

Há uma discussão quase que permanente nos meios de comunicação, no congresso e em outros fóruns, envolvendo questões como descriminalização das drogas, legalização do aborto, casamento entre homossexuais, candidatos com problemas judiciais e outros.

Primeiro sobre as drogas: Sou a favor da descriminalização da maconha, porém radicalmente contra as outras, ou seja, cocaína, crack, heroína, etc. Maconha é prejudicial à saúde, mas, se comparada com o próprio tabaco, que é legal e mata oito pessoas de câncer, por hora, no Brasil, é menos nociva, além de, comprovadamente, em seu uso controlado e racional, ter propriedades terapêuticas importantes. As outras exigem procedimentos químicos, cuja manipulação é complexa, o vício é rápido e muito forte, desagregam famílias, despersonalizam, humilham, enlouquecem. São realmente drogas para otários. Claro que dependência química é uma doença, mas os exemplos são tão evidentes que muitos poderiam fazer um esforço para evitar a iniciação. Sem contar com o álcool e muitos alimentos industrializados, ou mesmo colhidos das hortas, que adoecem as pessoas e matam muitas. Não podemos esquecer as drogas usadas pela medicina. Quantas delas são venenos usados como experiência, principalmente no terceiro mundo? Aqui mora a hipocrisia. Ninguém põe em discussão a grande quantidade de indústrias que poluem e fabricam drogas e alimentos cuja composição foge às características de comida saudável. Ah, mas elas geram impostos e empregos, diriam os políticos e economistas. Há tecnologia mais adequada que gera emprego e imposto.

Sobre o aborto: Abortar por abortar é o grande problema. Abortar por causa de um estupro, por risco da mãe, ou por impossibilidade de uma vida saudável ou sobrevivência do feto, é indiscutível e óbvio que precisa ser aceito e legalizado. Naturalmente que a mãe deve ser acompanhada com profissionais da saúde física e mental. Já o aborto por desistência da mãe é uma discussão que precisa ser aprofundada. Antes disso, gerar um debate profundo sobre a raiz do problema, ou seja, uma sociedade cujos valores estão invertidos e banalizados. A sociedade deve planejar seus membros e não sair provocando abortos indiscriminadamente, pondo em risco a integridade física e psicológica das mulheres. Até porque, se liberar geral, muitos serão realizados por profissionais não qualificados, com consequências graves para mães e até mesmo para os filhos, cujos fetos venham a sobreviver às tentativas de interrupção da gravidez.

Casamento entre homossexuais é necessário para que, de forma justa, seja legitimado o direito à herança do patrimônio construído ao longo de um relacionamento que, hoje, ficaria para os familiares do falecido e não para o parceiro ou parceira. Não precisa nem se discutir a legitimidade da relação afetiva.

Discussão menos necessária é sobre os políticos que têm problemas na justiça. Muitos buscam a imunidade parlamentar, e só. Teve problema judicial tem que ser julgado. Se condenado pagar a pena. Se inocentado ganha o direito de ser candidato, mas é preciso ficar de olho, pois sua conduta pode ser duvidosa.

Estes são assuntos polêmicos que exigem uma discussão muito mais ampla e, certamente, alguns discordarão, mas é uma opinião. Todos têm o direito de emitir sua opinião. Contra ou a favor. Esta é a minha. Por favor, quem discordar, argumente. Se me convencer eu mudo.

Paulo Viana

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Manhã de Pacoti

Meu olhar, colhido pela paisagem de Pacoti, repousa suavemente na clorofila. O vento entrega-me uma brisa fresca e a pele acolhe o frio que alivia o calor da efervescência natural da vida. Pássaros cantarolam livremente, senhores de sua independência, sem a ação do lado bestial, imbecil e desnaturado dos humanos que os matam ou aprisionam. Alegres, cada um anuncia sua cantiga, num especial momento de verdadeiro mundo. Como em todos os lugares, as pessoas transitam com seus universos particulares, mas um traço, quase imperceptível, de tranquilidade, brilha em cada olhar. É a espécie vivendo no seu habitat, da forma mais apropriada possível, considerando a época em que vivemos e a mentalidade autodestrutiva que ainda predomina.

Apesar de todos os problemas, quando respiro a natureza de Pacoti acho a vida bonita e boa. Talvez eu tenha me fixado, de alguma forma, no mito do Jardim do Éden. Devo dizer que é um excelente mito a ser perseguido.

Por vezes, tento imaginar como seria a humanidade se tivesse planejado a civilização e executado, desde o começo, o desenvolvimento sustentável. Como estariam o Planeta, as pessoas e a ciência? Como seriam os empregos?

Jamais obterei essa resposta. É muito tarde. O estrago na Natureza, no espírito humano, nas relações foi muito grande. Fomos muito sedentos e continuamos sugando o Planeta para atender aos caprichos dos apegados ao poder, e à força do dinheiro.

Desejo que todos os pacotienses tenham seus olhares acolhidos pela beleza natural dessas montanhas e faça um pacto consigo mesmo de lutar pela preservação. Que todas as crianças entendam o aprisionamento dos pássaros como um ato contra cada um de nós. Contra nosso direito de viver com simplicidade e a melhor qualidade possível. E que todos os visitantes sejam bem-vindos e tragam consigo o respeito ao meio-ambiente e levem a saudade de um lugar privilegiado, preservado, agradável e bonito.

Paulo Viana